Miguel Pinto
Miguel Pinto
04 Abr, 2025 - 15:43

Juromenha: entre muralhas e memórias com vista para Espanha

Miguel Pinto

Cravada nos limites do Alentejo, Juromenha merece uma visita demorada. É uma lição de história, a olhar para o outro lado da fronteira.

Vista de Juromenha

A aldeia de Juromenha é uma verdadeira sentinela do tempo, um marco de uma história que ao longo dos séculos viveu glórias e derrotas, mas que sempre se destacou como uma fortaleza em defesa da nacionalidade

Encavalitada sobre uma elevação com vista privilegiada para o rio Guadiana, esta pequena localidade alentejana, localizada no concelho do Alandroal, esconde um rico património histórico e cultural que merece ser descoberto com tempo e atenção.

A escassos quilómetros da fronteira com Espanha, é um lugar onde o passado e o presente convivem em harmonia, envoltos numa paisagem tipicamente alentejana de horizontes largos e serenidade contagiante.

Por isso, nada como um passeio nesta aldeia, já muito desertificada, mas que continua a manter todos os seus encantos. Venha connosco.

Juromenha: um olhar sobre a História

A história de Juromenha remonta à Antiguidade. Ocupada desde os tempos pré-romanos, a região viu passar romanos, visigodos, mouros e cristãos. O nome actual tem origem árabe – “Jurumaniya” – e foi um importante ponto de defesa muçulmano até ser conquistada por D. Afonso Henriques em 1167.

No entanto, a posse da aldeia oscilou entre cristãos e mouros até ser definitivamente integrada no território português no século XIII.

Devido à sua localização estratégica junto ao Guadiana, Juromenha tornou-se, durante séculos, um ponto nevrálgico de defesa da fronteira luso-espanhola. Foi reforçada militarmente por ordem de D. Dinis, e mais tarde transformada em praça-forte durante a Guerra da Restauração no século XVII.

A fortaleza, de traça abaluartada, foi adaptada aos tempos modernos, com bastiões e muralhas espessas que ainda hoje resistem ao tempo.

No século XIX, com a perda de importância militar e administrativa, Juromenha entrou num processo de declínio. A aldeia antiga foi parcialmente abandonada, e os seus edifícios, incluindo igrejas, quartéis e casas, começaram a ruir.

Ainda assim, o seu valor histórico permanece intacto e continua a atrair visitantes em busca de autenticidade e tranquilidade.

Fortaleza de Juromenha

O que visitar em Juromenha

O grande ex-líbris é, sem dúvida, a Fortaleza de Juromenha, que ocupa uma posição dominante sobre o rio Guadiana. Ainda que em estado de ruína, as suas muralhas e bastiões impressionam pela imponência e pela forma como se fundem com a paisagem. Caminhar pelas suas ruas abandonadas é como entrar numa aldeia fantasma cheia de histórias por contar.

No interior da fortaleza, destacam-se as ruínas da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Loreto, de origem medieval, e da Igreja da Misericórdia, que atestam a importância religiosa e comunitária que Juromenha teve no passado.

A vista panorâmica sobre o rio Guadiana, especialmente ao pôr-do-sol, é outro dos pontos altos da visita. Do alto, é possível avistar a vizinha Vila Real, do lado espanhol, e perceber como o rio unia e separava simultaneamente dois mundos.

Para os amantes da natureza e da fotografia, Juromenha é um local ideal: o contraste entre a vegetação, as pedras antigas e o céu vasto do Alentejo oferece oportunidades únicas de contemplação e registo visual.

Espanha: relação de vizinhança

Juromenha encontra-se a menos de 5 quilómetros da fronteira com Espanha. Esta proximidade deu origem a séculos de trocas comerciais, culturais e até familiares entre as populações dos dois lados do Guadiana.

Hoje, a travessia para Espanha é fácil e rápida, sendo possível ir e voltar no mesmo dia para uma experiência ibérica completa. A ponte internacional mais próxima situa-se a poucos minutos de carro, ligando Alandroal a Badajoz ou Olivença, consoante o percurso escolhido.

Como chegar a Juromenha

Juromenha situa-se a cerca de 200 quilómetros de Lisboa, e o acesso faz-se preferencialmente de carro. Desde a capital, o trajeto mais direto é pela A6 em direção a Elvas, saindo depois para o IP2 e seguindo as indicações para Alandroal e posteriormente Juromenha.

Para quem vem do norte do país, a melhor opção é pela A23, ligando depois à A6. A partir de Évora, são cerca de 60 quilóemreos até Juromenha, por estradas nacionais em bom estado e com paisagens deslumbrantes pelo caminho.

Onde dormir nas redondezas

Embora Juromenha não disponha de muitas opções de alojamento dentro da aldeia, a zona do Alandroal e arredores oferece várias alternativas acolhedoras e autênticas.

  • Monte dos Cordeiros: Turismo rural a poucos quilómetros, com piscina e vista para o campo.
  • Herdade das Barrocas: Ideal para quem procura paz e contacto com a natureza.
  • Estalagem de S. Brás: No centro do Alandroal, com acesso fácil à aldeia.

Para uma experiência mais exclusiva, há também casas rurais e agroturismos que permitem aos visitantes conhecer de perto a vida alentejana.

Gastronomia a não perder

A gastronomia do Alentejo é simples, rica e cheia de sabor e Juromenha não é exceção. Assim, há muitos pratos típicos que não pode deixar de provar.

  • Açorda alentejana, com coentros frescos e ovo escalfado;
  • Ensopado de borrego, especialmente em dias festivos;
  • Migas com entrecosto, prato de conforto e tradição;
  • Queijos e enchidos locais, acompanhados de um bom vinho da região;
  • Doçaria conventual, como as queijadas, os toucinhos do céu ou os bolos de mel.

Nos restaurantes do concelho do Alandroal, é possível encontrar todos estes sabores, preparados com o carinho e o saber de gerações.

Como se pode constatar, Juromenha é mais do que uma aldeia fronteiriça. É um símbolo da persistência do tempo, da história e da identidade alentejana. Um local onde o silêncio fala alto, onde as muralhas guardam memórias e onde o Guadiana continua a unir dois países. Ideal para uma escapadinha com alma e história.

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